domingo, 3 de maio de 2015

Voltaire

Voltaire, filósofo francês que viveu entre 1694 e 1778, tentou encontrar uma solução para o problema que estamos discutindo, embora, seja evidente, em um contexto diferente. No Dicionário filosófico, ele escreveu um verbete intitulado “Liberdade de Pensamento”, expondo um conflito entre um general inglês (Boldmind) e um funcionário da Inquisição na Espanha (Medroso). Deste conflito, Voltaire indicou o caminho para escolhermos sem seguir interesses que não são verdadeiramente nossos. Vamos acompanhar o diálogo para encontrar esse caminho:
Liberdade de pensamento
“Boldmind: O senhor é, portanto, sargento dos dominicanos? Então o senhor exerce um trabalho bem vil.
Medroso: É verdade; mas gostei mais de ser criado deles do que ser vítima e preferi a desgraça de queimar o meu próximo à de ser eu próprio cozido.
Boldmind: Que horrível alternativa! Vocês eram cem vezes mais felizes sob o jugo dos mouros que lhes deixaram estagnar livremente no meio das suas superstições e que, embora vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros.
Medroso: O que o senhor queria? Não nos é permitido escrever, nem falar, nem mesmo pensar. Se falamos, torna-se fácil  interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Enfim, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. Persuadiram o governo que se possuíssemos o senso comum todo o Estado ficaria em combustão e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: E o senhor acha que somos assim desgraçados, nós, ingleses, que cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vocês batalhas nos confins da Europa? Veja os holandeses que tomaram de vocês quase todas suas  descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os seus protetores: pensa que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Foi menos poderoso o império romano por Cícero haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.
Boldmind: Não cabe ao senhor acreditá-lo, pois está seguro que sua religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Se assim é, nada poderá destruí-la.
Medroso: Não, mas pode ser reduzida a pouca coisa. E foi por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a sua ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Diz-se mesmo que se os homens continuassem a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, em que se tornará o Santo Ofício?
Boldmind: Se os primeiros cristãos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quer dizer? Não entendo.
Boldmind: Acredito. Quero dizer que se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Portanto, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está fundado?
     Quando lhe propõem algum negócio interessante, não o examina demoradamente, antes de o concluir? Haverá no mundo maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Existem sobre a Terra cem religiões e todas lhes condenam à danação por acreditarem nos seus dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios; examine, portanto, esses dogmas.
Medroso: Como posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: O senhor é homem e isso basta.
Medroso: Ai de mim! O senhor é bem mais homem que eu.
Boldmind: A você apenas cabe aprender a pensar; o senhor nasceu com espírito; é uma ave na gaiola da Inquisição; o Santo Ofício lhe aparou as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode instruir-se: é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Ouse pensar por si mesmo.
Medroso: Há quem diga que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria prodigiosa.
Boldmind: Pelo contrário. Quando assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião e a paz não é perturbada; se, porém, algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de gosto a considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu em Londres. São estes tiranos dos espíritos que causaram parte das desgraças do mundo. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião (...)”.
    O problema que temos a resolver é: como fazer escolhas que reflitam o que realmente queremos, o que realmente necessitamos, sem sermos influenciados e manipulados por outrem? Voltaire, pela personagem Boldmind, indicou que estas escolhas precisam passar pelo critério do pensamento: trata-se de ousar pensar por nós mesmos, sem aderir a nenhum projeto sem antes examiná-lo com cuidado, sem entregar nossa alma seja a quem for.


domingo, 15 de março de 2015

Devoração da esperança no próximo

“(…) No individualismo contemporâneo, a impessoalidade converteu-se em indiferença e os elos afetivos da intimidade foram cercados de medo, reserva, reticência e desejo de autoproteção. Pouco a pouco, desaprendemos a gostar de “gente”. Entre quatro paredes ou no anonimato das ruas, o semelhante não é mais o próximo-solidário; é o inimigo que traz intranquilidade, dor ou sofrimento. Connhecer alguém; aproximar-se de alguém; relacionar-se intimamente com alguém passou a ser tarefa cansativa. Tudo é motivo de conflito, desconfiança, incerteza e perplexidade. Ninguém satisfaz a ninguém. Na praça ou na casa vivemos – quando vivemos! – uma felicidade de meio expediente, em que reina a impressão de que perdemos a vida “em colheitas de café”.
            As elites ocidentais são elites sem causa e, no Brasil, estamos repetido o que, secularmente, aprendemos a imitar. Como nossos modelos europeus e americanos, reagimos ao sentimento de miséria em meio à opulência com apatia, imobilidade e conformismo. Construir um mundo justo? Para quê? Para quem? Por um acaso um mundo mais justo seria aquele em que todos pudessem ter acesso ao que as elites têm? Mas o que têm as elites a oferecer? Consumo, tédio, insatisfação e ostentação. Bem ou mal, em nossa tradição moral e intelectual, respondíamos às crises de identidade reinventando utópicas formas de vida em mundos melhores. Hoje, aposentamos os “Rousseau”. Em vez de utopias, manuais de auto-ajuda, psicofármacos, drogas e terapêuticas diversas para os que têm dinheiro; banditismo, vagabundagem, mendicância ou fanatismo religioso para os que apenas sobrevivem (...).
            (...) Fizemos de nossas vidas claustros sem virtudes; encolhemos nossos sonhos para que coubessem em nossas íntimas singularidades interiores; vasculhamos nossos corpos, sexos e sentimentos com a obsessão de quem vive um transe narcísico, e, enfim, aqui estamos nós, prisioneiros de cartões de crédito, uso de drogas e a dolorosa consciência de que nenhuma fantasia romântica pode saciar a voracidade com que desejamos ser felizes. Sozinhos em nossa descrença, suplicamos proteção a economistas, policiais, especuladores e investidores estrangeiros, como se algum deles pudesse restituir a esperança “no próximo” que a lógica da mercadoria devorou(...).”


COSTA, J.F. Folha de São Paulo, 22 de Set.1996. Mais! 5º Caderno. P.5-8.

domingo, 8 de março de 2015

Texto de Adam Smith

“Cada homem vive do seu trabalho, e o salário que recebe deve ser pelo menos suficiente para o manter. Em muitas ocasiões esse salário deve até ser um pouco mais alto; se não, ser-lhe-ia impossível constituir família, e a raça desses homens não passaria da primeira geração. Os trabalhadores comuns, as camadas mais baixas, devem ganhar pelo menos o dobro daquilo que necessitam para sua própria subsist6encia, a fim de que, quando se juntam dois trabalhadores de sexos diferentes, possam das à luz e sustentar duas crianças.”

Adam Smith

domingo, 1 de março de 2015

Política de Aristóteles - Trecho

“A sociedade que se formou da reunião de várias aldeias constitui a Cidade, que tem a faculdade de bastar a si mesma, sendo organizada não apenas para conservar a existência, mas também para buscar o bem-estar. Esta sociedade, portanto, também está nos desígnios da natureza, como todas as outras são seus elementos. Ora, a natureza de cada coisa é precisamente seu fim. Assim, quando um ser é perfeito, de qualquer espécie que ele seja – homem, cavalo, família -, dizemos que ele está na natureza. Além disso, a coisa que, pela mesma razão, ultrapassa as outras e se aproxima mais do objetivo proposto deve ser considerado a melhor. Bastar-se a si mesma é a uma meta que tende a toda produção da natureza e é também o mais perfeito estado. É, portanto, evidente que toda Cidade está na natureza e que o homem é feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem uma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem, segundo Homero: um ser sem lar, sem família e sem leis.
            Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra, não sendo detido por nenhum freio e, como uma ave de rapina, estaria sempre pronto para cair sobre os outros.
            Assim, o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas ou os outros animais que vivem juntos. A natureza, que nada faz em vão, concedeu a ela apenas o dom da palavra, que não devemos confundir com os sons da voz. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis, de que os outros animais são, como nós, capazes. A natureza deu-lhes um órgão limitado e este único efeito; nós, porém, temos a mais, senão o conhecimento desenvolvido, pelo menos o sentimento obscuro do bem e do mal, do útil e do nocivo, do justo e do injusto, objetos para a manifestação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da Fafá. Este comércio da palavra é o laço de toda a sociedade doméstica e civil.
            O Estado, ou sociedade política, é a te mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedade domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mão e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com e, ou é um deus, ou um bruto. Assim, a inclinação natural leva os homens a esse genro de sociedade.
            O primeiro que a instituiu trouxe-lhe o melhor dos bens. Mas, assim como o homem civilizado é o melhor de todos os animais, aquele que não conhece nem justiça e nem leis é o pior de todos. Não há nada, sobretudo, de mais intolerável do que a injustiça armada. Por si mesmas, as armas e a força são indiferentes ao bem e ao mal: é o princípio motor que qualifica seu uso. Servir-se delas sem nenhum direito e unicamente para saciar suas paixões ávidas de lucro é atrocidade, desumanidade. Seu uso só é lícito para a justiça. O discernimento e o respeito ao direito formam a base da vida social e os juízes são seus primeiros órgãos.


ARISTÓTELES. Política

Aristóteles - Ética a Nicômaco (Trecho)

Livro I – item 1
[1094 a]- Toda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda escolha, visam a um bem qualquer; e por isso foi dito, não sem razão, que o bem é aquilo a que as coisas tendem. Mas entre os fins observa-se uma certa diversidade: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades das quais resultam; e onde há fins distintos das ações, tais fins são, por natureza, mais excelentes do que as últimas.
            Mas como muitas são as ações, artes e ciências, muitas também são suas finalidades. O fim da medicina é a saúde, o da construção naval é um navio, o da estratégia militar é a vitória, e o da economia é a riqueza. Entretanto, onde tais artes se subordinam a uma única faculdade – como, por exemplo, a selaria e as outras artes relativas aos aprestos dos cavalos incluem-se na arte da equitação, e esta subordina-se, junto com todas as ações militares, na estratégia, e igualmente há algumas artes que se subordinam em terceiras -, em todas elas os fins das artes fundamentais devem ter precedência sobre os fins subordinados, pois, com efeito, estes últimos são procurados em função dos primeiros. Não faz diferença alguma que as finalidades das ações sejam as próprias atividades ou sejam algo distinto destas, como ocorre com as artes e as ciências que mencionamos.

Livro I – item 4
Retomando a nossa investigação, tendo em vista o fato de que todo conhecimento e todo trabalho visa a algum bem, procuremos determinar o que consideramos ser os objetivos da ciência política e o mais alto de todos os bens que se podem alcançar pela ação. Em palavras, quase todos estão de acordo, pois tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem que esse bem supremo é a felicidade e consideram que o bem viver e o bem agir equivalem a ser feliz; porém, divergem a respeito do que seja a felicidade, e o vulgo não sustenta a mesma opinião dos sábios. A maioria das pessoas pensa que se trata de alguma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as honras, embora também discordem entre si; e muitas vezes o mesmo homem a identifica com diferentes coisas, dependendo das circunstâncias: com a saúde quando está doente, e com a riqueza quando é pobre. Cônscios, porém, da própria ignorância, admiram aqueles que propõem algum ideal grandioso e inacessível à sua compreensão. Ora, há quem pense que, à parte desses numerosos bens, existe um outro que é bom por si mesmo e que também é a causa da bondade de todos os outros. Seria talvez infrutífero examinar todas as opiniões que têm sido sustentadas a esse respeito; basta considerar as mais difundidas ou aquelas que parecem ser mais razoáveis.
Atendemos, porém, para a diferença entre os argumentos que procedem dos primeiros princípios e os que levam a eles. Com efeito, Platão já havia levantado esta questão, perguntando, como costumava fazer: “estamos no caminho que parte dos primeiros princípios ou no que se dirige a eles?” Aqui há uma diferença análoga àquela que há, em estádio, entre a reta que vai do ponto em que ficam os juízes até o ponto de retorno, em um sentido, e o caminho de volta, no outro sentido. De fato, embora devamos começar pelo que é conhecido, os objetos de conhecimento o são em duas acepções: alguns o são relativamente a nós, outros na acepção absoluta do termo. Por conseguinte, é de se presumir que devamos começar pelas coisas que são conhecidas a nós. Por essa razão, quem quiser ouvir com proveito as exposições sobre o que é nobre e justo, e em geral sobre a ciência política, é preciso ter sido educado nos bons hábitos. O fato é o princípio, ou o ponto de partida, e se ele for suficientemente claro para o ouvinte, não haverá necessidade de explicar por que é assim; e o homem que foi bem educado já conhece esses princípios ou pode vir a conhecê-los com facilidade. Quanto ao que nem os conhece nem é capaz de conhecê-los, que ouça as palavras de Hesíodo:
Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas;
Bom, o que escuta os conselhos dos homens judiciosos.
Mas o que por si não pensa, nem acolhe a sabedoria alheia,
Esse é, em verdade, um homem inteiramente inútil.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

Mundo capitalista e o trabalho (continuação)

O mais importante fator para a Filosofia que marcou a transição para o mundo do capitalismo foram os teóricos do chamado liberalismo econômico. Estes teóricos descobriram no trabalho a fonte de toda a riqueza, seja individual, seja coletiva. O mais importante dos autores dessa transição foi Adam Smith, que defendia que toda a riqueza de uma nação dependia da produtividade baseada na divisão do trabalho. Em outras palavras, o trabalho que era realizado por um único ser humano agora passou a ser executado por vários trabalhadores que se especializaram em tarefas específicas e que se complementavam entre si.
            A produção se tornou mecanizada e com isso foi considerada a essência da sociedade do trabalho. O trabalho produtivo passou a ditar as regras da sociedade.
            Estamos, neste momento, falando sobre a Revolução industrial, que significou, além de um progresso, uma espécie de controle da sociedade. As classes dominantes da sociedade desejavam expandir o mercado e para isso era preciso universalizar esta nova ordem social.
            Era o fim declarado da autonomia do trabalho artesanal e a domesticação dos trabalhadores dentro dos muros das fábricas. A teoria defendida por Smith acabou por destruir o saber fazer do trabalho artesanal e o substituiu pela maquinofatura, onde os trabalhadores não mais saberiam fazer todos os elementos de seu trabalho justamente pela nova estrutura de uma divisão de especificidades.
            Para o pleno desenvolvimento dessa nova sociedade que era voltada para o trabalho foi necessário construir um corpo disciplinar que envolvesse todos, dentro e fora da fábrica. A ordem burguesa tornou-se a regra com todas as suas implicações na produtividade. Logo, criou-se um discurso que visava instaurar plenamente a ética do tempo útil.
            Sempre que alguém utilizava o tempo de forma não útil e não produtiva, de acordo com as normas impostas pela fábrica, era considerado um preguiçoso e degenerado. Ou seja, apenas o trabalho produtivo era considerado algo que trazia dignidade ao homem.
            Juntamente com os fatores elencados, procurou-se destruir qualquer forma de resistência, tornando mais fácil a imposição do trabalho no modelo fabril. E aos que se recusavam a aceitar essa forma de ordem social era expurgado da sociedade, como por exemplo, a imensa massa de trabalhadores europeus que chegaram à America.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Sócrates e a liberdade

Já vimos todos os dias pessoas que não conseguem se controlar em algumas situações um pouco difíceis. Brigas no trânsito, discussões em família, às vezes até com consequências um pouco mais drásticas. Quando presenciamos este tipo de acontecimento, é comum ouvirmos a afirmação: “Tal pessoa perdeu a cabeça.”, ou “Esta pessoa não é equilibrada.”
            E quando pensamos em uma pessoa que mesmo sem causar qualquer tipo de confusão, não consegue se controlar, o estranhamento é o mesmo. Por exemplo alguém que gaste muito mais do que tem e fique sempre em uma situação complicada.
            Em todos esses casos podemos afirmar sem sombra de dúvida que todos são livres e que por isso podem fazer o que bem entenderem com a suas próprias vidas. Assim, podemos discutir com os outros, gastar à vontade, desrespeitar os mais velhos, maltratar nossos pais... certo?
            Mas será que já pensamos nos grandes estragos se todos agissem assim? Quantas pessoas magoadas, quantas lágrimas, quanto sofrimento isso poderia causar?
            Basta tomarmos como exemplo o que anda ocorrendo no Oriente médio. As pessoas não querem permitir às outras seguir suas próprias ideias e nem mesmo suas próprias crenças. A consequência é a guerra onde muitos são mortos, inclusive jovens das idades de vocês, que não tiveram liberdade alguma para escolher o que quer que fosse.
            Ou seja, temos um problema muito sério se entendermos que a liberdade é poder exercer todos os nossos impulsos sem o pensamento. Ora, vamos agir fazendo o que quisermos mas os outros vão fazer o mesmo. Será que não iríamos fazer com que todos entrassem em conflito?

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O trabalho na ética capitalista

                 Já vimos em nossas aulas que o trabalho é inerente aos seres humanos. Essa crença vem do Renascimento. No período moderno se criou a crença de que o trabalho faz parte da essência humana, ou seja, a crença de que o trabalho nos diferencia dos outros animais. Com o fim da lógica medieval, os seres humanos puderam se reconhecer como cidadãos por meio de suas conquistar que viriam do suor. A cidadania não era mais algo natural, sem que pudéssemos intervir nesse processo de construção social. Agora, diferentemente do que ocorria na antiguidade e na era medieval, o trabalho adquiriu reconhecimento para se conquistar o reconhecimento em sociedade. Em meio a essa mudança, surgiram algumas utopias de que o ser humano poderia se realizar por meio do trabalho.
            Nicolau Maquiavel afirma que os homens possuíam ou uma necessidade de trabalhar ou escolhiam trabalhar, sendo que haveria mais virtude caso pudessem escolher em vez de ser uma necessidade. Assim, já podemos encontrar no pensador moderno a noção do trabalho como realizados, como promotor da virtude.
            Devemos também falar que o trabalho, na transição da sociedade feudal para a sociedade moderna era visto inicialmente como um fator de enriquecimento pessoal, o que o levava a ser considerado um pecado. Mas na lógica capitalista, passou a ser visto como vontade divina. A reforma religiosa deixou isso evidente. Tome-se como exemplo Martinho Lutero, que apesar de condenar o lucro e a usura, contribuiu fortemente para o espírito capitalista. Condenava o enriquecimento à custa de outros, afirmando que isso era um sinal de ausência de graça divina, mas afirmava conformação a situação de cada um na sociedade, ou seja, se for possível economizar por meio de seu próprio trabalho, isso seria muito bem visto.

            A ética capitalista aproveitou-se desse fator religioso. Pois agora era possível afirmar o trabalho como algo positivo e consequentemente, o enriquecimento como fruto de esforço pessoal e também como graça de Deus. Logo, a ociosidade, mesmo entre as classes ricas passou a ser vista como uma espécie de negação de Deus. Só se mostrava a verdadeira fé por meio do esforço e por meio de trabalho produtivo. Os burgueses passaram a utilizar o trabalho como sua oração. Quem aceitasse a pobreza não encontraria a salvação.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O amor suplementar

“É dos mais neuróticos e parasitários o amor que leva uma pessoa a achar a outra um pedaço de si mesma.
            O saudável, nas relações amorosas, seria, primeiro, que a pessoa já tivesse conseguido crescer até o tamanho total de si própria. Depois, aprendesse a viver por si mesma e de si mesma. Só então acasalasse com alguém que tivesse tido igual desenvolvimento e soubesse viver de si mesmo também. Assim, inteiros e juntos, começariam a viver sensações inéditas, extraordinárias, impossíveis de se viver sozinho e que não existem em nós nem sequer em semente. É o amor suplementar de que falamos. Neste ponto, é bom proclamar o que se constitui em nossa ética fundamental: o amor não deve servir para coisa alguma, a não ser para se amar.
            Quando, por uma razão qualquer, a relação amorosa se desfaz, o que se desfaz de fato é só a relação amorosa, e não as vidas e a integridade de cada um. E o que se tem observado é que, por mais denso que tenha sido o amor, quando ele se desfaz nas relações sadias (suplementares), surgem logo novos encontros, novos namoros e relacionamentos; o amor pode se refazer. É outro, original, porém comm intensidade e qualidade semelhante ao anterior.”
FREIRE, R.; BRITO, F. Utopia e paixão.

“Morreu, o nosso amor morreu.
Mas cá prá nós,

Antes ele do que eu...”

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A economia de mercado e o mundo do trabalho

O mundo feudal entra em crise. A subsistência e a servidão entram em crise e dão lugar ao comércio e às atividades manufatureiras. Surge, dessa forma, uma nova ordem social: o sistema capitalista, que se dá com a divisão da sociedade em classes sociais.
            O crescimento de um mercado consumidor conviveu por algum tempo com a antiga escravidão, mas não se ateve a isso... criou, por sua vez, novas formas de escravizar as pessoas. Basta pensarmos nos sistemas coloniais da América, com os habitantes do continente africano vítimas do processo de mercantilização.
            Mas, para um desenvolvimento pleno do que as elites econômicas esperavam, a escravidão não era o ideal, o trabalho livre era o esperado. Enquanto, inicialmente, ao trabalhador europeu se destinava o trabalho assalariado, ao personagem das Américas, se destinava o trabalho forçado. Apenas após séculos, é que se aplicou por aqui a concepção burguesa de liberdade individual, tendo como princípio o fato de que o homem é livre para determinar onde vai utilizar sua força de trabalho.
            Ocorre que essa liberdade de escolha nunca funcionou como o esperado. A produção sempre buscou excedentes, ou seja, produtos que serviriam para a troca por outras mercadorias. Porém, estes excedentes eram sempre propriedade de quem detinha os recursos de produção e nunca do trabalhador que possuía sua força de trabalho. Por exemplo o artesão, que no sistema feudal era proprietário de suas ferramentas e usava seu tempo livremente, desapareceu, pois não estava inserido em outra lógica de trabalho, na qual não possuía mais suas ferramentas e nem mesmo seu tempo livre.

            Houve a separação entre o trabalhador e os meios de produção, ou seja, o mundo capitalista separa o capital do trabalho. Essa separação criou dois tipos de pessoas livres. De um lado, o trabalhador assalariado, que vive exclusivamente de sua força de trabalho e o burguês  ou capitalista, que é proprietário dos meios de produção.

As relações amorosas em questões pessoais – As relações homem-mulher

               Ao observarmos a natureza com mais atenção, vamos perceber determinadas leis universais. Uma dessas leis que pode nos interessar muito neste momento é a lei de atração e repulsão, que está presente o tempo todo em todo o mundo natural.
            Quando falamos por exemplo de átomos... para manter seu movimento constante, o tempo todo estão sob as leis citadas acima. Se unem e se separam. Mas quando ocorre a união, sempre formam uma nova coisa. Por exemplo, quando dois átomos de Hidrogênio se unem a um de Oxigênio, temos a água, substância vital para tudo.
            Nos vegetais, a atração gera cores e perfumes únicos, flores, frutos que gerarão novas sementes que germinarão e se atrairão futuramente.
            Os animais possuem, por sua vez, rituais que culminam no processo de acasalamento, tais como sons, danças, lutas, entre outros... Mas não podemos esquecer que somos também animais e não possuímos mais esses processos tão evidentes como quando estamos em natureza, ou seja, enquanto os animais agem instintivamente, nós agimos por racionalidade. Ou seja, abandonamos o instinto puro e passamos a nos considerar semelhantes às pessoas que amamos. Nos tornamos parceiros, companheiros que se enriquecem com o convívio mútuo.
            Ocorre a união de seres autônomos e totalmente independentes de uma maneira totalmente bela. Basta pensarmos em formas de educação totalmente diferentes que se unem, o que gera pessoas que pensam de maneira diferente, agem de maneiras diferentes, mas que ainda assim encontram meios para permanecerem unidos.

Os mitos de Perseu e Aracne

O mito de perseu

O rei Acrísio consultou um oráculo quando seu neto nasceu. Ouvindo a previsão de que seria morto e destronado pelo próprio neto, resolveu colocá-lo junto com a mãe em uma caixa, dentro de uma embarcação, para que esta levasse os dois para bem longe. Protegida por Zeus, pai da criança, de nome Perseu, a embarcação chegou na ilha de Serifo, onde foi encontrada pelo príncipe da cidade, que casou-se com a mãe de Perseu, Dânae.

      Crescido, Perseu teve autorização de seu padrasto para aventurar-se pelo mundo. Em gratidão, Perseu prometeu-lhe trazer a cabeça de uma das três górgonas como presente. Conduzido pelos deuses, Perseu passou pela morada das grisalhas, seres de um só olho e um só dente, e que conseguiam usá-los, apenas, alternadamente. Perseu roubou-lhes os olhos e dentes, dizendo que só devolveria se elas dissessem onde moravam as ninfas. A chantagem deu certo e foi para lá que Perseu se dirigiu. 
    Com as ninfas, criaturas conhecidas por ajudar pretendentes a heróis, Perseu conseguiu sapatos alados, uma bolsa e um capacete que o tornava invisível; ademais, Hermes o presenteou com uma foice de bronze. Armado, viajou pelo Oceano até a morada das górgonas. Lá, ajudado pela deusa Atena, escolheu a górgona imortal, conhecida como Medusa, para golpear. Arrancou-lhe a cabeça e colocou-a na bolsa sem olhá-la nos olhos para que ele não fosse transformado em pedra.
   Fugindo das irmãs da Medusa, Perseu voou sobre o deserto da Líbia. As gostas de sangue que caiam da cabeça da Medusa transformaram-se em serpentes ao tocarem o chão e, até hoje, esta região tem muitas cobras. Cansado, pediu abrigo ao rei Atlas para descansar, mas foi mal recebido e desrespeitado: o rei expulsou Perseu. Este, enfurecido, transformou seu reino em pedra ao apontar a cabeça da Medusa em todas as direções.
   Continuando a viagem, Perseu avistou uma mortal acorrentada em uma pedra à beira da praia. Conversando com ela, Perseu ouviu que ela estava ali porque os deuses puniram sua família e que o reino de Cefeu só não seria inundado se a princesa fosse colocada em sacrifício a um monstro marinho. Perseu aguardou, então, que a maré subisse e derrotou o monstro, salvando a princesa Andrômeda e a pedindo em casamento.
   A família de Andrômeda ficou maravilhada com o feito de Perseu, que se casou com Andrômeda após derrotar um antigo pretendente dela. Morando agora nas terras de um rei estrangeiro, Perseu participou de uma competição esportiva e, na prova de arremesso de discos, fazendo um lançamento desastroso, acertou seu avô sem saber que ele estava ali. Assim, cumpriu-se a previsão oracular. 

O mito de Aracne


     Aracne era a melhor tecelã da região da Lídia e sua arte era tal que as pessoas diziam que sua mestra havia sido Palas Atena, a deusa da sabedoria. Mas Aracne não gostava desta história e, certa vez, disse a todos:
-          Não aprendi minha arte com a deusa e como prova disso convido-a a competir comigo. Caso ela vença, aceitarei qualquer punição.
    A deusa não gostou e disfarçou-se de uma velhinha para aproximar-se de Aracne. Puxou conversa e disse que a mortal deveria demonstrar humildade com os deuses e pedir perdão a Atena. Aracne chamou a velhinha de louca e disse-lhe que se Atena quisesse dizer-lhe algo, o convite já havia sido feito. Furiosa, a deusa da sabedoria teve sua paciência esgotada, retirou o disfarce e disse a Aracne que a competição para ver quem tecia o tapete mais belo deveria começar imediatamente. Ambas colocaram-se a tecer.
    Atena teceu no seu tapete a imagem do penhasco da acrópole de Atenas, lugar que ela conquistou após uma luta com Posídon, deus dos mares. Teceu também a luta entre ela, armada de escudo e lança (que, quando tocou a terra, deu origem à oliveira na terra infértil), com Posídon, retratado empunhando seu tridente. Além de desenhar sua vitória, Atena colocou em cada um dos quatro cantos do tapete, imagens que simbolizavam a arrogância humana: Hemo e Ródope que chamavam-se de Zeus e Hera e foram transformados em montanhas; a mãe dos pigmeus transformada em garça; Antígona com serpentes na cabeça que não paravam de mordê-la, já que ela comparara-se a Hera, e depois transformada em cegonha; Cíniras chorando por suas orgulhosas filhas.
    Já Aracne, desonrara Zeus no seu tapete: desenhou-o transformado em touro, águia, cisne, sátiro, fogo e chuva de ouro. Quando Atena viu o tapete de Aracne, golpeou-a com um ódio terrível e a perfurou três vezes na testa com a agulha de tecer; além disso, Atena fez os cabelos, o nariz e os ouvidos de Aracne desaparecerem, fez seu corpo diminuir bastante de tamanho e condenou-a a praticar sua antiga arte eternamente, tecendo fios como uma aranha. Segundo o mito, eis Aracne: origem dos aracnídeos.