Voltaire, filósofo francês que viveu
entre 1694 e 1778, tentou encontrar uma solução para o problema que estamos
discutindo, embora, seja evidente, em um contexto diferente. No Dicionário filosófico, ele escreveu
um verbete intitulado “Liberdade de Pensamento”, expondo um conflito entre um
general inglês (Boldmind) e um funcionário da Inquisição na Espanha (Medroso).
Deste conflito, Voltaire indicou o caminho para escolhermos sem seguir
interesses que não são verdadeiramente nossos. Vamos acompanhar o diálogo para
encontrar esse caminho:
Liberdade de
pensamento
“Boldmind: O senhor é, portanto, sargento dos dominicanos? Então o
senhor exerce um trabalho bem vil.
Medroso: É
verdade; mas gostei mais de ser criado deles do que ser vítima e preferi a
desgraça de queimar o meu próximo à de ser eu próprio cozido.
Boldmind: Que
horrível alternativa! Vocês eram cem vezes mais felizes sob o jugo dos mouros
que lhes deixaram estagnar livremente no meio das suas superstições e que,
embora vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a
ferros.
Medroso: O que o
senhor queria? Não nos é permitido escrever, nem falar, nem mesmo pensar. Se
falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os
nossos escritos. Enfim, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos
nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por
ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. Persuadiram o
governo que se possuíssemos o senso comum todo o Estado ficaria em combustão e
a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: E o
senhor acha que somos assim desgraçados, nós, ingleses, que cobrimos os mares
com os nossos barcos e viemos ganhar para vocês batalhas nos confins da Europa?
Veja os holandeses que tomaram de vocês quase todas suas descobertas na Índia e hoje se enfileiram
entre os seus protetores: pensa que sejam malditos de Deus por haverem
concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos
humanos? Foi menos poderoso o império romano por Cícero haver escrito com
liberdade?
Medroso: Quem é
Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de
nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a
religião romana está perdida se os homens começam a pensar.
Boldmind: Não
cabe ao senhor acreditá-lo, pois está seguro que sua religião é divina e que as
portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Se assim é, nada poderá
destruí-la.
Medroso: Não,
mas pode ser reduzida a pouca coisa. E foi por terem pensado que a Suécia, a
Dinamarca, toda a sua ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de
não mais serem súditos do papa. Diz-se mesmo que se os homens continuassem a
guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração
de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse
ponto, em que se tornará o Santo Ofício?
Boldmind: Se os
primeiros cristãos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não
existiria cristianismo?
Medroso: Que
quer dizer? Não entendo.
Boldmind:
Acredito. Quero dizer que se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de
dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta;
se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império
romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas.
Portanto, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que
contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a
qual está fundado?
Quando lhe propõem algum negócio interessante, não o examina demoradamente,
antes de o concluir? Haverá no mundo maior interesse que o da nossa felicidade
ou eterna desgraça? Existem sobre a Terra cem religiões e todas lhes condenam à
danação por acreditarem nos seus dogmas, que essas religiões consideram
absurdos e ímpios; examine, portanto, esses dogmas.
Medroso: Como
posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: O
senhor é homem e isso basta.
Medroso: Ai de
mim! O senhor é bem mais homem que eu.
Boldmind: A você
apenas cabe aprender a pensar; o senhor nasceu com espírito; é uma ave na
gaiola da Inquisição; o Santo Ofício lhe aparou as asas mas elas podem voltar a
crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode
instruir-se: é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais
não se confiaria o dinheiro. Ouse pensar por si mesmo.
Medroso: Há quem diga que, se toda a
gente pensasse por si, a confusão seria prodigiosa.
Boldmind: Pelo
contrário. Quando assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua
opinião e a paz não é perturbada; se, porém, algum insolente, protetor de algum
mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de gosto a considerarem bom o que
lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já
aconteceu em Londres. São
estes tiranos dos espíritos que causaram parte das desgraças do mundo. Na
Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de
exprimir a sua opinião (...)”.
O problema que
temos a resolver é: como fazer escolhas que reflitam o que realmente queremos,
o que realmente necessitamos, sem sermos influenciados e manipulados por
outrem? Voltaire, pela personagem Boldmind, indicou que estas escolhas precisam
passar pelo critério do pensamento: trata-se de ousar pensar por nós mesmos, sem aderir a nenhum projeto sem antes
examiná-lo com cuidado, sem entregar nossa alma seja a quem for.