Livro I – item 1
[1094 a]- Toda arte e toda investigação, bem como toda
ação e toda escolha, visam a um bem qualquer; e por isso foi dito, não sem
razão, que o bem é aquilo a que as coisas tendem. Mas entre os fins observa-se
uma certa diversidade: alguns são atividades, outros são produtos distintos das
atividades das quais resultam; e onde há fins distintos das ações, tais fins
são, por natureza, mais excelentes do que as últimas.
Mas
como muitas são as ações, artes e ciências, muitas também são suas finalidades.
O fim da medicina é a saúde, o da construção naval é um navio, o da estratégia
militar é a vitória, e o da economia é a riqueza. Entretanto, onde tais artes
se subordinam a uma única faculdade – como, por exemplo, a selaria e as outras
artes relativas aos aprestos dos cavalos incluem-se na arte da equitação, e
esta subordina-se, junto com todas as ações militares, na estratégia, e
igualmente há algumas artes que se subordinam em terceiras -, em todas elas os
fins das artes fundamentais devem ter precedência sobre os fins subordinados,
pois, com efeito, estes últimos são procurados em função dos primeiros. Não faz
diferença alguma que as finalidades das ações sejam as próprias atividades ou
sejam algo distinto destas, como ocorre com as artes e as ciências que
mencionamos.
Livro I – item 4
Retomando a nossa investigação, tendo em vista o fato de que todo
conhecimento e todo trabalho visa a algum bem, procuremos determinar o que
consideramos ser os objetivos da ciência política e o mais alto de todos os
bens que se podem alcançar pela ação. Em palavras, quase todos estão de acordo,
pois tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem que esse bem
supremo é a felicidade e consideram que o bem viver e o bem agir equivalem a
ser feliz; porém, divergem a respeito do que seja a felicidade, e o vulgo não
sustenta a mesma opinião dos sábios. A maioria das pessoas pensa que se trata
de alguma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as honras, embora
também discordem entre si; e muitas vezes o mesmo homem a identifica com
diferentes coisas, dependendo das circunstâncias: com a saúde quando está
doente, e com a riqueza quando é pobre. Cônscios, porém, da própria ignorância,
admiram aqueles que propõem algum ideal grandioso e inacessível à sua
compreensão. Ora, há quem pense que, à parte desses numerosos bens, existe um
outro que é bom por si mesmo e que também é a causa da bondade de todos os
outros. Seria talvez infrutífero examinar todas as opiniões que têm sido sustentadas
a esse respeito; basta considerar as mais difundidas ou aquelas que parecem ser
mais razoáveis.
Atendemos, porém, para a diferença entre os argumentos que procedem dos
primeiros princípios e os que levam a eles. Com efeito, Platão já havia levantado
esta questão, perguntando, como costumava fazer: “estamos no caminho que parte
dos primeiros princípios ou no que se dirige a eles?” Aqui há uma diferença
análoga àquela que há, em estádio, entre a reta que vai do ponto em que ficam
os juízes até o ponto de retorno, em um sentido, e o caminho de volta, no outro
sentido. De fato, embora devamos começar pelo que é conhecido, os objetos de
conhecimento o são em duas acepções: alguns o são relativamente a nós, outros
na acepção absoluta do termo. Por conseguinte, é de se presumir que devamos
começar pelas coisas que são conhecidas a nós. Por essa razão, quem quiser
ouvir com proveito as exposições sobre o que é nobre e justo, e em geral sobre
a ciência política, é preciso ter sido educado nos bons hábitos. O fato é o
princípio, ou o ponto de partida, e se ele for suficientemente claro para o
ouvinte, não haverá necessidade de explicar por que é assim; e o homem que foi
bem educado já conhece esses princípios ou pode vir a conhecê-los com
facilidade. Quanto ao que nem os conhece nem é capaz de conhecê-los, que ouça
as palavras de Hesíodo:
Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas;
Bom, o que escuta os conselhos dos homens judiciosos.
Mas o que por si não pensa, nem acolhe a sabedoria alheia,
Esse é, em verdade, um homem inteiramente inútil.
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